Lilian de Lourdes Oliveira Henriques

Lee Oliveira, Mauaense, SP, empresária, influencer literária, do canal O.QUE.LI.
Escritora, Poetisa, Artesã, Bookstagram e Colunista e Editora Setorial de Literatura do Jornal Cultural Rol.
Participou de várias antologias.
Já publicou, pela editora UICLAP, os livros: O Desenho (infantil), MEUS (poesias) e O QUE LI ESTE ANO, em parceria com J.H. Martins (planner literário).
Elogio ao Patrono

Ariano Suassuna
Falar sobre Ariano Vilar Suassuna (1927–2014) não é apenas repassar datas e títulos; é mergulhar na própria alma da cultura brasileira. Como biógrafo e apaixonado pela nossa literatura, vejo a trajetória dele como uma verdadeira epopeia nordestina, onde a tragédia pessoal se transformou na mais pura celebração da vida, da comédia e da identidade nacional. Aqui está o retrato completo desse mestre absoluto:
A Ferida Fundadora: O Começo de Tudo
Ariano nasceu em 16 de junho de 1927 no Palácio da Redenção, em João Pessoa, pois seu pai, João Suassuna, era o governador da Paraíba. No entanto, o privilégio durou pouco. Em 1930, durante a efervescência da Revolução, seu pai foi assassinado no Rio de Janeiro por motivos políticos. Ariano tinha apenas três anos. Com medo de perseguições, a mãe pegou os nove filhos e refugiou-se no sertão, no município de Taperoá. Foi nesse exílio forçado que a mágica aconteceu: o menino criado entre a dor da perda e o isolamento encontrou o seu refúgio na cultura popular. Ali, assistindo a teatros de bonecos (mamulengos), ouvindo os cantadores de viola e devorando os folhetins de cordel, Ariano moldou o seu imaginário. Ele costumava dizer que toda a sua obra era uma tentativa de honrar a memória e o nome do pai.
A Consolidação do Gênio: O Teatro e a Escrita
Na juventude, mudou-se para o Recife, onde se formou em Direito e Filosofia. Mas a sua verdadeira vocação já gritava mais alto. Nos bancos da Faculdade de Direito do Recife, fundou o Teatro do Estudante de Pernambuco e começou a escrever.
O Nascimento de um Clássico (1955): Aos 28 anos, Ariano escreveu a sua obra-prima absoluta: O Auto da Compadecida. Unindo a estrutura dos milagres medievais europeus (como os autos de Gil Vicente) à malandragem do cordel nordestino, ele criou João Grilo e Chicó. A peça é uma crítica social brilhante disfarçada de comédia escrachada, onde os desvalidos enganam os poderosos e encontram a salvação na figura de uma Nossa Senhora profundamente humana (e negra).
O Casamento Erudito e Popular: Suassuna não ficou preso apenas ao teatro. Ele escreveu romances monumentais, como o Romance d'A Pedra do Reino (1971), um projeto estético ambicioso que misturava a história do Brasil, o sebastianismo e a mitologia ibérica encrostada no sertão.
O Movimento Armorial: O Escudo contra a "Massificação"
Em 1970, Ariano liderou a criação do Movimento Armorial. O objetivo era nobre e urgente: criar uma arte erudita brasileira a partir das raízes populares do nosso folclore. Ariano era um nacionalista ferrenho. Ele lutava contra o que chamava de "colonização cultural" americana e a massificação da música e da arte estrangeiras nas rádios e televisões. Ele queria que as pessoas tivessem tanto orgulho de um tocador de pife ou de uma gravura em cordel quanto têm de uma sinfonia de Beethoven.
O Imortal e o Professor (As Aulas-Espetáculo)
Eleito para a Academia Brasileira de Letras (ABL) em 1989, Ariano nunca vestiu o fardão com a empáfia dos intelectuais distantes. Ele foi professor de Estética na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) por três décadas e, nos seus últimos anos de vida, correu o Brasil inteiro com as suas famosas Aulas-Espetáculo.
Nesses encontros, ele subia ao palco de chinelos e um traje simples, transformando palestras acadêmicas em verdadeiros espetáculos de humor, sabedoria e contação de causos. Ele fazia a plateia gargalhar e chorar na mesma intensidade, defendendo a riqueza da nossa língua e do nosso povo.
O Pensamento Viva: O "Realista Esperançoso"
Uma das suas frases mais famosas resume perfeitamente o seu espírito diante da vida e do Brasil:
"O otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso."
Ariano faleceu em 2014, aos 87 anos, mas a sua presença é tão vívida que parece que ele apenas saiu da sala para buscar um café e conversar com um cantador de viola. Ele conseguiu a maior proeza que um escritor pode almejar: tornou-se parte do folclore e da identidade do próprio país que tanto amou.
