A escrita e o papel da Literatura em Indaiatuba
- Rubens Pantano Filho

- 5 de fev.
- 4 min de leitura
A tarde é uma tartaruga com o casco pardacento de poeira, a arrastar-se interminavelmente. Os ponteiros estão esperando por ela. Eu só queria saber quem foi que disse que a vida é curta...
“Verão” (QUINTANA, Mario. A vaca e o Hipogrifo. Rio de Janeiro: MEDIAfashion, 2008, p. 79)

Fonte: NMontoya. Memória escrita e digital. 2025.
A literatura não é um espelho que reflete o mundo, mas um prisma que o transforma e nos conecta uns aos outros.
Imagine caminhar pelas ruas de Indaiatuba e, entre o movimento intenso nos arredores da Praça Prudente de Moraes e o silêncio do Parque Ecológico, perceber que cada esquina guarda uma narrativa invisível. Este texto explora como a literatura local deixa de ser um exercício solitário para se tornar a espinha dorsal da nossa identidade cultural. Para você, leitor, isso importa porque a escrita é a ferramenta mais democrática de poder: ela preserva nossa memória e nos permite ser protagonistas da nossa própria história.
Por que escrevemos?
Muitas vezes, a literatura é vista como uma atividade solene, restrita a bibliotecas empoeiradas ou gabinetes fechados. No entanto, na Academia de Letras de Indaiatuba (ALI), entendemos que o texto é um organismo vivo. Escrevemos porque o silêncio é insuficiente. Escrevemos para organizar o caos do cotidiano e para oferecer ao outro uma janela para nossa visão de mundo.
Quando um autor publica um poema ou uma crônica, ele está fazendo mais do que “falar de si”. Ele está criando um lugar de memória, um termo da historiografia que explica como certos objetos ou obras ajudam a manter viva a identidade de um grupo. Sem a escrita, nossa história seria apenas um amontoado de datas e números; com ela, a história ganha rosto, voz e sentimento.
A clareza é nossa maior aliada nesse processo. Um texto rigoroso não precisa ser difícil; ele precisa ser exato. Rigor, aqui, significa o compromisso com a verdade da emoção e com o cuidado na escolha de cada palavra, garantindo que a mensagem chegue ao destino sem ruídos.
A literatura como praça pública
A vida literária de uma cidade não acontece apenas no papel. Ela vibra nos saraus, nas oficinas, nas discussões em cafés e na troca de impressões entre leitores. A ALI funciona como esse ponto de convergência, no qual o “escritor de gaveta” encontra o autor publicado e ambos descobrem que compartilham o mesmo DNA: a curiosidade pelo humano.
Participar da vida cultural de Indaiatuba é um ato de resistência contra a pressa dos tempos modernos. Enquanto o mundo nos pede produtividade ininterrupta, a leitura nos pede pausa. Ler um autor da nossa terra é um exercício de reconhecimento. É ver o nome de uma rua, o clima da nossa cidade ou o sotaque do nosso povo transfigurado em arte. Isso gera o que chamamos de pertencimento, o sentimento de que fazemos parte de algo maior e que nossa existência tem peso e valor.
O mito da inspiração e o ofício do esculpir
Existe um mito comum de que a literatura depende exclusivamente de uma “musa” ou de um momento de iluminação divina. Na verdade, a escrita é, em grande parte, um trabalho de carpintaria. Como dizia João Cabral de Melo Neto, escrever é “catar feijão”. É preciso separar o que serve do que é apenas excesso.
Para quem deseja iniciar na vida literária, o convite é simples: comece pelo que você vê. A boa literatura não precisa necessariamente de grandes epopeias; ela pode residir na forma como a luz da manhã atinge a torre do relógio, nas brincadeiras do nosso cãozinho ou na conversa ouvida por acaso em um ônibus. O rigor literário nasce da observação atenta. Quando você se dispõe a descrever o mundo com cuidado, você começa a enxergar nuances que antes passavam despercebidas.
Um convite ao diálogo e à ação
A ALI não é um ponto final, mas um ponto de partida. Nossa missão é fomentar esse ambiente no qual a reflexão seja bem-vinda e o debate seja respeitoso. Queremos que este espaço seja para uma “conversa inteligente”, como se estivéssemos em uma sala de estar, discutindo a última leitura ou o próximo projeto literário.
A cultura de uma cidade é um organismo que precisa ser alimentado. Cada vez que você prestigia um lançamento de livro local, comenta um texto de um autor da cidade ou se arrisca a escrever suas próprias linhas, você está injetando vida na nossa comunidade. A literatura nos humaniza porque nos obriga a calçar os sapatos do outro, a entender dores que não são nossas e a celebrar alegrias compartilhadas.
O que fica de tudo isso?
O texto literário é, em última análise, um convite para o encontro. Em Indaiatuba, temos um terreno fértil, cheio de talentos prontos para serem descobertos e vozes que precisam de eco. Não deixe que suas ideias fiquem restritas ao pensamento. Traga-as para o papel, para a conversa, para a praça. A cidade é feita de tijolos, mas é narrada por palavras.
Rubens Pantano Filho é professor do Instituto Federal São Paulo (IFSP) e membro efetivo da Academia de Letras de Indaiatuba, cadeira n.º 31 – Patrono: Mário Quintana.




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