Especial Dia dos Pais
- Academia de Letras de Indaiatuba

- há 7 dias
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Íntegra dos textos publicados no Instagram da ALI
À noite, em um deserto, no meu coração - Flávia Girardi

“À noite, em um deserto, no meu coração.” E o desenho de uma estrela bem grande no céu.
Esse é o texto de uma cartinha que fiz aos 7 anos — com erros de português — para o meu pai. Ele era a estrela. E, sem saber, eu fazia uma poesia.
É interessante como, na vida, muitas vezes, sem que a gente sequer imagine, faz poesia. Hoje, interpretando aquela pequena frase, eu entendo.
Ele — meu pai — era (e é) a estrela que ilumina a minha vida, mesmo que eu esteja em um deserto. Sem nada. Sem ninguém. Porque o que nos move é o que a gente ama. E, se a gente ama, nunca estaremos completamente sós.
A poesia nasce disso: do amor. Da presença, mesmo quando ela já não está presente.
A poesia nasce do pequeno. Do menor. Do quase ínfimo, mas que, ainda assim, é gigante. E não do grande.
Nasce de um olhar que viu. Nasce de um sorriso que, sem dizer nada, respondeu a todas as nossas perguntas. Nasce do silêncio compartilhado. De um abraço quando mais se precisou. De um ataque de riso por causa de uma coisa banal.
Nasce em uma segunda-feira à tarde. Numa quarta à noite. Num dia comum.
Numa viagem que deu tudo errado. Naquele dia em que você achou que seria tudo incrível e nada foi como imaginava. E, ainda assim, foi melhor. Porque, ao seu lado, tinha alguém que riu daquilo com você. Ou que apenas te acolheu.
A poesia nasce daquela noite em que você não dormiu bem, mas alguém — que estava morrendo de sono — te ouviu. Nasce do prato de sopa que você nem imaginava que estaria ali, te esperando.
Nasce de uma frase que veio na hora certa — e, às vezes, doeu — mas te fez acordar. Nasce da cor de um dia diferente, que só foi diferente porque a diferença estava no seu olhar.
Nasce do som da voz de alguém que a gente ama. Música. Aquilo que ressoa na alma. E a gente nem sabe por quê. Mas só de saber que existe, já basta.
A gente faz poesia porque a gente é poesia. Ritmo, pausa, estrofe, compasso. E, quando, no caminho, encontramos quem nos ajude a compor, a rima simplesmente vem. Nasce pronta.
É como uma estrela no céu. Igual àquela que desenhei aos 7 anos, sem saber de regras, métricas, nem de ortografia. Seu brilho ilumina. Nos faz não apenas ver, mas sentir a beleza. E existe poesia maior do que se permitir sentir?
Flávia Girardi
Membra Efetiva e Perpétua da Cadeira nº 24 – Patrono Érico Veríssimo
Homenagem aos Pais - Darcio Calligaris
Há apenas um dia no calendário
em que o mundo se detém para dizer:
"Feliz Dia dos Pais."
Mas como resumir em um único dia
uma vida inteira de amor, renúncias, cuidados
e incontáveis noites de preocupação?
Lembro-me como se fosse hoje.
Na maternidade, enquanto aguardava o nascimento do meu primeiro filho,
eu estava sentado, ansioso e silencioso.
Ao meu lado sentou-se um senhor de cabelos brancos,
com o olhar sereno de quem já conhecia a vida.
Sorriu e perguntou:
— É menino ou menina?
Respondi, com o coração acelerado:
— Ainda não sei... Estou ansioso para descobrir.
Ele sorriu novamente e, com a sabedoria dos anos, disse:
"Meu jovem, prepare-se.
Suas preocupações começam hoje…
e nunca mais terminarão.
Porque a criança que está para nascer
será a joia mais preciosa que você possuirá,
e você a amará por toda a eternidade."
Suas palavras atravessaram o tempo.
Quantas vezes elas ecoaram em meu coração
nos momentos de medo, de incerteza e de dificuldade.
E sempre que pensava em meus filhos,
encontrava forças para seguir em frente.
Hoje, já ultrapassando os setenta anos,
ainda me recordo daquele senhor desconhecido,
que sem saber transformou uma breve conversa
em uma das maiores lições da minha vida.
Sempre que encontro um pai de primeira viagem,
repito aquelas mesmas palavras,
na esperança de que elas também o acompanhem
por toda a sua caminhada.
Ser pai é descobrir que o amor não conhece limites.
É querer proteger mesmo quando os filhos já cresceram.
É continuar rezando por eles todos os dias,
pedindo a Deus saúde, sabedoria, paz,
uma família abençoada
e uma vida digna e feliz.
Porque o coração de um pai
jamais se aposenta do amor.
E, por fim, só me resta agradecer.
Obrigado, meus queridos filhos,
por me concederem o maior presente da minha vida:
o privilégio de ser pai.
Que um dia seus filhos também lhes concedam
essa mesma alegria,
para que compreendam, ainda mais profundamente,
que o amor de um pai
é um amor que o tempo não envelhece,
a distância não diminui
e a eternidade jamais apagará.
Feliz Dia dos Pais!
Darcio Calligaris
Escritor, educador e palestrante
Flores para uma travessia - Rubens Pantano Filho
Já há algum tempo eu vinha lamentando pela sua provável partida. Chorava pelas estradas, quando sozinho transitava de uma cidade a outra; chorava à noite, antes de dormir, nos momentos em que ficava a sós com meus pensamentos; chorava no banho quando minhas lágrimas se misturavam à água quente que lavava superficialmente minhas dores, tentando cicatrizar algumas das minhas feridas. Na maioria das vezes, fiz isso sempre só. Uma atitude que é fruto da nossa cultura e que acabei assimilando exemplarmente: a falsa ideia de que nós, homens, somos fortes.
Ingenuamente, eu achava que esse momento poderia ser adiado indefinidamente. Dessa forma, creio que nem percebi a lenta preparação para sua viagem. Achando que ela ainda demoraria, nem notei que havia algo maior que o chamava. E foi só quando o encontrei, na última quinta-feira, que tomei consciência de que sua ida era mesmo inexorável. Paradoxalmente – e não sei por qual razão - alguma força interior me fez não mais chorar. E não é porque eu não conseguia chorar em público; o fato é que eu estava tranquilo, muito sereno e sabia que a hora era chegada.
Na sexta-feira, levantei-me de madrugada, vesti-me e dirigi-me ao local acordado. Quando o dia amanheceu, ficamos nós todos lá de prontidão para receber seus colegas e admiradores que começavam a se reunir para as formais despedidas. O sol foi se erguendo no horizonte e as pessoas foram chegando: parentes, amigos, gente que nunca tínhamos visto e que foram lá para homenageá-lo. Houve até quem nos dissesse que, quando criança, se não passara fome um dia, fora devido ao auxílio que o senhor prestara aos familiares dele. E também foram chegando flores. Eram flores coloridas, nos mais variados matizes, arrumadas em armações muito belas e também ornamentadas com faixas. Li todos os dizeres e as identificações de quem as mandava: vinham de todos os lugares, de várias instituições e de inúmeras famílias. Além disso, todos os conhecidos que chegavam nos cumprimentavam e diziam palavras que nos deixavam ainda mais orgulhosos, fazendo-nos compreender melhor como fora até então seu trajeto.
Quando estávamos no início da tarde, já havia um corredor florido pelo qual o senhor passaria; nele não cabiam mais flores. E as pessoas todas se aglomeravam para um último aceno. Olhei no relógio e ainda faltava uma hora. Foi então que me lembrei de que também tinha um mimo para lhe entregar e que gostaria que o senhor o carregasse em sua próxima jornada. Reuni vários dos meus Irmãos que estavam ali presentes. Eram muitos e vindos das mais variadas localidades. Pedia a eles que fizessem uma corrente que o circundasse em sinal de respeito. Tirei do bolso um pequeno ramo e lembrei aos presentes de que aquele era o símbolo do nosso Mestre. Entreguei-o a quem estava à minha direita, pedi a ele que o segurasse e nele colocasse suas boas energias, passando-o em seguida. Um a um, meus Irmãos foram segurando a pequena planta por alguns segundos, dizendo ou pensando cada qual o que desejasse, até que ela completou o círculo e, assim, retornou às minhas mãos. Coloquei-a em sua lapela e dei-lhe meu beijo de despedida.
A acácia é o símbolo da imortalidade da alma, muito provavelmente pela principal de sua característica que é a durabilidade e a resistência ao ataque de insetos, devido às suas típicas resinas. Da mesma forma que a flor que desabrocha e murcha nos faz lembrar a natureza transitória da vida humana, a renovação perpétua da acácia, sempre verde, aparentando juventude e vigor, é adequadamente comparada à vida espiritual, na qual a alma, uma vez liberta da companhia do corpo, gozará de eterna primavera e imortal juventude. Assim, essa planta permanentemente verde é um emblema da nossa crença na imortalidade, ou seja, ela nos faz lembrar que, dentro de nós, existe uma parcela que sobrevive à morte e que nunca perecerá.
Pai, que sua travessia seja tranquila, doce e serena!
Rubens Pantano Filho
Cadeira n.º 31 – Patrono: Mario Quintana
O papel do pai - Rosângela Silva
A família tradicional cujo papel do pai era prover, proteger, sustentar, punir e dar segurança, da mãe educar e ensinar e o dos filhos, aprender e incorporar as regras ensinadas há muito vem se modificando.
Boa parte das crianças e jovens hoje vive com apenas um dos pais, na maioria das vezes só com a mãe.
Na nova concepção familiar, todos têm que se adaptar e se adequar para cumprir os novos papéis e desafios que se instalam. Pontos positivos e negativos desfilam entre todos que têm que se remodelar para atender às novas exigências e expectativas da sociedade.
Nessa nova formatação familiar, muitas mudanças ocorreram. A mãe, antes responsável pela organização doméstica e rainha da afetividade e do aconchego teve que partir para o mercado de trabalho e esse papel ficou delegado às babás, cuidadores, avós e até para os professores. O pai, em muitos casos, transformou-se numa figura ainda mais ausente, pouco participativo na formação de seus filhos, devido às inúmeras exigências oriundas do trabalho. Outros, por sua vez, compreenderam a necessidade da parceria e passaram a dividir com a mãe tarefas ligadas aos filhos que antes eram só do universo feminino: dar banhos, alimentar, frequentar reuniões escolares, auxiliar nas lições de casa e estudos.
Só o que ainda não mudou é o papel fundamental do pai, estando casado ou não, na construção da identidade de seus filhos, sejam eles do sexo masculino ou feminino.
Sendo pai de menino, o homem será responsável pela sua identificação sexual e servirá como modelo em seus hábitos e atitudes. O pai para as meninas tem significado crucial, pois mesmo identificando-se com as mães, elas buscam atingir o amor paterno que lhes possibilitará conhecimentos sobre o sexo oposto. Ele é o “primeiro homem” na vida da filha, sendo através dele que ela aprende a observar e entender o universo masculino. Hoje, pesquisas indicam que meninas que estiveram fortemente ligadas aos pais na infância demonstram ser mais seguras e ter alta autoestima.
Estudos também indicam que a ausência paterna pode levar os meninos a maior desajustamento socioemocional e níveis mais baixos de autoestima e competência social.
Já nas meninas, a falta do pai aumenta o risco de dificuldades emocionais (menor autoestima e insegurança), pode gerar um baixo autoconceito e até maior vulnerabilidade em relacionamentos amorosos.
Por tudo isso, pode-se concluir que a ausência paterna, tanto para as meninas quanto para os meninos, apresenta perdas fundamentais para o seu desenvolvimento e aprimoramento pessoal.
Pais: seu maior presente aos filhos sempre será a sua presença recheada de ensinamentos, que acontecem, muitas vezes, quando vocês menos imaginam.
As Mãos do Meu Pai - Mário Quintana
As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já cor de terra
— como são belas as tuas mãos —
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram
na nobre cólera dos justos…
Porque há nas tuas mãos, meu velho pai,
essa beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam
nos braços da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas…
Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente,
vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento?
Ah, Como os fizeste arder, fulgir,
com o milagre das tuas mãos.
E é, ainda, a vida
que transfigura das tuas mãos nodosas…
essa chama de vida — que transcende a própria vida…
e que os Anjos, um dia, chamarão de alma…




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